Dois Cantos

22.5.07

O que eu odeio

Não sei o que eu odeio mais. Se são minhas perguntas ou suas respostas.
O fato é que não posso viver com elas. Nem sem elas.


Se não pergunto, todas as possibilidades de respostas ficam vagando em minha mente, me torturando, falando cada vez mais alto, berrando no meu ouvido. E para acabar com esse desespero sufocante pergunto.


Se pergunto, essa angústia acaba e dá lugar a novos fantasmas. Aqueles das novas possibilidades, agora todas com maior probabilidade de terem existido, com um gostinho amargo da verdade.


Suas respostas, sempre tão sinceras, me irritam. Mais que isso, me machucam. Mas se não fosse assim seria de outra forma. Não minta pra mim, mas não seja tão sincero assim. Dói.
E o pior é que é por isso que eu te amo tanto. Porque sei que posso acreditar em tudo que me fala. Porque você fala comigo docemente, mas respeitando acima de tudo a minha condição adulta de ter capacidade de entender e enxergar as diferenças tão básicas, tão simples, tão tontas.


O problema é que nessas horas eu é que acabo esquecendo um pouco essa minha condição.
Acho que é por odiar minhas perguntas que acabo expulsando todas elas da minha cabeça em voz bem alta, pra ver se elas vão embora de uma vez.


Acho que é por odiar suas respostas que eu continuo perguntando, pra ver se isso muda uma hora, mesmo sabendo que não vai mudar.


Acho que é porque suas respostas nunca mudam que eu te respeito e te admiro tanto.

16.2.07

Meus 25 anos

Amanhã faço 26 anos. Hoje estou me despedindo dos 25, um ano que foi marcante para mim.
Foi aos 25 que fiz minha primeira viagem de avião e descobri que eu, aquariana, que amo tanto a liberdade e sonho em ter asas – por mais clichê que isso possa parecer –, tenho medo de voar. Não é um medo assim que me empeça de realizar meu sonho de conhecer o mundo inteiro. Mas é um medo suficiente pra me fazer ficar quieta, muda, por quarenta minutos, o que, no fim das contas, rendeu boas risadas entre os que conhecem a tagarela aqui.

Também foi com 25 que fui internada pela primeira vez num hospital. Coisa tonta, só uma infecçãozinha, mas que deu um baita susto lá em casa. Passei mal no meio da noite, o Kiko me levou pro hospital e lá eu fiquei até no fim da tarde, quando acharam melhor fazer uma cirurgiazinha – uma laparoscopia. O mais engraçado de tudo é que, quando eu tomei anestesia, acho que eu estava com aquelas histórias de gente que toma anestesia e fica em coma por anos na cabeça, aí, quando eu voltei da anestesia, ainda estava meio grogue, eu queria perguntar que dia era, mas não conseguia falar direito, então eu olhava pra minha mão, pra saber se eu estava velha. Quando vi que ainda estava de esmalte, pensei: “bom, eu ainda tô de esmalte... então se eu fiquei em coma foram só uns dias, não tem problema”. Toda vez que eu conto essa história alguém diz que eu não sou muito normal!

O ano dos meus 25 anos ainda foi marcado pela primeira vez que doei sangue. Sim! Havia muito tempo que eu tinha vontade de doar sangue porque considero extremamente importante, mas morro de medo e ainda não tinha ido, até que ontem – exatamente, nos últimos momentos dos meus 25 anos – apareceu a oportunidade. Uma campanha para doação de sangue no carnaval e lá fui eu com uns amigos. Doei certinho, mas o medo me consome. Acabei vomitando depois e até desmaiando. Tudo nervoso, porque não dói! Eu é que sou molenga mesmo. Vergonhosamente molenga! De qualquer forma, fiquei feliz de ter feita a doação.

Mas o fato que mais marcou meus 25 anos aconteceu no dia 7 de outubro, num hotel chiquérrimo. Ah, quase esqueci! Aos 25 anos fiquei, pela primeira vez, hospedada num hotel chiquérrimo, num quarto com diária de 800 reais – tudo de presente, né? Mas o mais legal de tudo foi ser pedida em casamento pelo homem da minha vida, numa surpresa incrível.
Enfim, o ano dos meus 25 anos marcou minha vida, e o ano dos 26 promete muito mais! Tá ficando bom ficar velha!

9.2.07

Classificação das Pessoas

As pessoas podem ser classificadas de várias formas. Por raça, religião, tamanho dos pés. Eu, particularmente, as separo em 3 categorias: as que nos surpreendem, as neutras e as que nos decepcionam. E isso não significa que elas são, respectivamente, boas, médias e ruins, senão a classificação seria simplesmente assim. Essa classificação que eu dou para as pessoas é muito mais profunda. Vou explicar.

Observo antes que, é claro, ela não é taxativa. As pessoas podem passear pelos três tipos, dependendo do momento. Então talvez esses não sejam tipos de pessoa, mas tipos de comportamento, porém muitas vezes isso esbarra no conjunto de reincidências de comportamento, que acabam formando uma pessoa e não um único comportamento.
Enfim, isso ainda não está tão claro na minha cabeça como a classificação em si, então vou me resumir a ela. Lá vai:

As pessoas neutras são aquelas que fazem exatamente o que você espera. Não importa se você espera um comportamento divinamente perfeito, se não espera nada ou se já espera alguma coisa ruim. Elas fazem o que é a cara delas e ponto.

As pessoas que nos decepcionam são aquelas que não alcançam aquilo que você espera delas, ou porque você não espera nada e elas fazem alguma coisa que você julga ruim, ou porque você espera um comportamento/atitude bacana da pessoa e ela se mantém neutra ou abaixo da neutralidade. Este último caso, quando você tem a pessoa numa posição privilegiada no seu ranking é muito mais complicado, pros dois lados. Para você porque dói quando alguém tão especial te decepciona. Para a pessoa é complicado (claro, depende do quanto a pessoa estima o lugar que ela ocupa no seu ranking) porque às vezes simplesmente esperamos mais dela do que ela pode dar, e não corresponder às expectativas é frustrante. Ninguém quer competir consigo mesmo e perder, porque é isso que acaba sendo. A pessoa tem que competir com uma versão dela que a gente criou, e aí a coisa é complicada. Mas, complicadas ou não, o fato é que existem as pessoas que nos decepcionam.

E deixei pro final as pessoas que nos surpreendem, porque essas têm tudo pra ser o melhor tipo. Normalmente, as pessoas que nos surpreendem são aquelas de quem a gente não espera nada, ou já espera alguma coisa bacana, e ela vai lá e faz melhor. Pode ser um puta show ou uma coisinha pequenininha, mas é mais do que a gente espera. E isso enche a gente de orgulho de conhecer a pessoa e, quando é alguém numa posição bacana no nosso ranking, de “orgulho de saber do potencial da pessoa”, do nosso “sexto sentido”, “premonição”, do faro para o sucesso.

Mas tem aquelas pessoas que nos surpreendem negativamente. Essas são aquelas de quem você já espera alguma coisa “não-boa” e ela vai lá e mostra pra você que pode ser pior. Isso, definitivamente, surpreende! Deixa a gente tristemente surpreendido, mas ainda assim surpreendido.

E assim, com todas essas pessoas, vou caminhando e aprendendo.

8.2.07

Solidariedade

Quando a água bate na bunda...

É bem engraçado isso, né? Ultimamente ando presenciando muitas cenas e situações que comprovam esse “ditado”. Gente que não move uma palha para ajudar ninguém com as mais politicamente corretas desculpas, até que a água bate na bunda. Aí vale tudo!
Nessa hora pode fazer tudo que não deu pra fazer pro outro e uma ou outra gambiarra a mais.

Acho triste isso. Acho feio.
Na verdade, até entendo que é muito mais fácil dizer que não dá do que falar que está com preguiça. Fica muito mais elegante dar motivos de qualquer natureza, sejam tecnológicos, religiosos, políticos ou até mesmo citar regras e mais regras, do que assumir que não está nem aí pro que está acontecendo, já que o problema não afeta sua vida. Juro que entendo. Mas ainda acho feio. Especialmente quando quem faz esse tipo de coisa tem memória curta e acaba se contradizendo. Se contradizendo para outra pessoa, claro. Talvez alguém mais querido ou que tenha mais valor. Não importa. Só sei que nessas situações em que a água bate na bunda, quando as pessoas têm que dar um jeito, vejo que não importam mais regras, que algumas conveniências deixam de existir. A própria realidade muda e solidariedade parece uma coisa distante.

Aliás, solidariedade para essas pessoas, acredito eu, deve ter a ver apenas com dar uma grana pra alguma entidade com fins muito mais merecedores de atenção do que o colega de trabalho, o vizinho, o irmão.

O que me consola é que em muitas das vezes que presenciei esse tipo de coisa feia, alguém apareceu, mesmo sem ser chamado, mesmo sem ter nada a ver com o assunto, mesmo sem ser afetado pelo que podia acontecer, e ajudou. Isso, em mim, desperta a esperança de que as pessoas passem a enxergar que a solidariedade está muito mais perto do que se imagina, é muito mais fácil do que se supõe, e pode ser dirigida a qualquer pessoa, àquela que está do nosso lado, por exemplo, que não necessariamente está com frio ou com fome, mas que pode estar precisando de alguma coisa.

2.2.07

Escrevendo


Acho que minha cabeça é vazia. Um imenso “vácuo de ar”, como dizia um amigo que insistia que a burra era eu!

Não estou falando de juízo, porque isso é o tipo de coisa muito variável e pessoal. Falo de idéias mesmo. Parece que tudo que me vem à cabeça é tirado de algum lugar óbvio, aquele famoso lugar comum. Que inferno! Uma sensação constante de deja vu. Um castigo interminável para quem vive de escrever.

Acho que só eu sou assim.
E parece que quanto mais liberdade eu tenho, mais difícil fica resolver isso. Aqui, por exemplo. O que eu devo fazer? Uma vez, a primeira redatora publicitária com quem tive contato, a Aline, me disse que, para as palavras, liberdade é uma página em branco. Pra mim isso é quase uma tortura.

Aí eu tento colocar uma música pra ver se vem alguma idéia, um pensamento iluminado. Mas o que acontece é que, de cara, eu tenho vontade de escrever sobre tudo que eu ouço na música. Concordando ou discordando, ou sobre a própria música, ou dando a minha versão dos fatos. E o que acaba acontecendo é que eu fico prestando atenção nas músicas, uma atrás da outra, e me perco no vazio de idéias.

Ok. Chega de música! Vou tomar um café então para dar aquela acordada. Odeio café, o que é ainda melhor para acordar. Ótimo. Agora estou mais acordada que nunca, com os olhos esbugalhados na frente do PC (talvez se fosse um Mac eu já teria umas 30 páginas geniais escritas). Estou acordada a ponto de pensar em várias formas de tentar ter idéia como sair, ler alguma coisa, conversar com alguém, observar as coisas simples do dia-a-dia e vê-las de forma diferente, de um outro ângulo, tentar contar uma história, descrever alguma coisa... mas não a ponto de pensar no quê efetivamente escrever.

Outra idéia me ocorre agora. Não, ainda não é sobre o que escrever. Mas é uma idéia assustadora. Lembrei daquela máxima que diz que nossa vida só é completa se plantarmos uma árvore, tivermos um filho e escrevermos um livro. Um livro do quê, meu Deus? Tudo bem que ainda não fiz nenhum dos três, mas, convenhamos, plantar uma árvore é tranqüilo. Se considerarmos o feijãozinho no algodão do pré-primário eu até já plantei. Se bem que o meu secou em uma semana, então melhor eu tentar de novo. Quanto ao filho, deve ser bem difícil, mas eu já sei como fazer e já tenho até o pai (que eu acho que deve ser a parte mais difícil de conseguir!). Mas um livro? Puta merda! Minha vida não vai ser completa por pura incompetência pessoal. Por falta de idéia. Que vida sonsa!

Agora fiquei deprimida.

Pronto, mas um texto sobre nada.

2.1.07

Um dia importante

3 anos.

Longos, se contarmos os momentos que passamos longe, semanas intermináveis com um em cada cidade, relógios parados a cada sexta-feira. Rápidos demais se contarmos os finais de semana de quando podíamos nos ver só de final de semana.

Longos se pensarmos que estamos apenas começando uma vida inteira. Curtos se pensarmos no quanto nos conhecemos, em tudo que sabemos um do outro só pelo tom da voz.

Mais de 1000 dias acordando com um motivo bem claro (e muitas vezes palpável, ali do lado) para ser a pessoa mais feliz do mundo, rir com brilho no olho, achar lindos até mesmo os dias mais carrancudos. Mais de 1000 finais de dia louca para contar um monte de coisas pra você. Mais de 1000 noites agradecendo por você estar aqui comigo.

Quase 30 mil horas pensando em você. Colecionando lembranças. Vivendo as melhores coisas da minha vida. Tudo por você e para você.

Ontem, começamos um ano importante pra gente. Hoje, comemoramos mais um ano juntos. O último aniversário de namoro como namorados-namorados. No dia dos namorados, já vamos comemorar como namorados-casados.

Obrigada por estar do meu lado por todo esse tempo e por querer continuar pra sempre.

Te amo.


2 de janeiro
- aniversário de namoro

15.12.06

Pagu e Pessoa

Estou lendo Paixão Pagu, uma autobiografia de Patrícia Galvão, figurinha singular, importante para a história do Brasil – tanto política quanto culturalmente.

O livro, na verdade, é uma carta que ela escreveu a Geraldo Ferraz, seu último marido, seu companheiro intelectual, como é dito no livro muitas vezes. Uma carta em que ela conta tudo. Tudo que sente, tudo que pensa, tudo que quer... todas as suas angústias. Mas não vou ficar aqui fazendo o prefácio ou a crítica do livro. Acho que ele deve ser lido, estou amando cada página, mas não tenho a pretensão de comentar o livro. Minha única intenção é falar de mim. Das minhas opiniões, percepções, meus pensamentos. É isso mesmo. Eu e meu egocentrismo, que não me permite ser imparcial, nunca. Mas não me importo muito com isso.

Comecei a escrever porque, lendo o livro, vi como sou uma pessoa pequena. Mesquinha mesmo. Admirei tanto essa mulher, o jeito com que escreve, sua vontade de vida. Queria ser assim, pensar assim, sentir assim. Queria, como ela, encontrar uma causa à qual me doar completamente. Queria sua coragem, sua visão de mundo. É incrível como ela se despe para escrever sobre si. Eu queria conseguir fazer isso também. Queria conseguir me ver sem nenhuma amarra. Queria me soltar dos medos que me enfraquecem.

Vi que sou pequena por me deixar enfraquecer pelos medos que tenho. Por ter inveja de tudo que eu li. Não das histórias por que ela passou, pois muitas são tristes, muitas estão fora do meu campo de compreensão. Não do entendimento, mas da compreensão, como ela mesma disse. Mas inveja do jeito que ela viu tudo e de tudo que ela viu.

Mas o mais interessante é que vi que sou pequena por muitas vezes pensar as mesmas coisas que ela, e porque isso aconteceu principalmente nos momentos em que ela mais se criticava. E o que eu via ali de parecido comigo não era somente a crítica que ela fazia, que eu também faria, mas também o pensamento que ela estava criticando.

E não é primeira vez que isso acontece. Livros e filmes mexem muito comigo. São meus divãs, a forma que tenho de me entender, entender as pessoas, mudar minha visão de mundo. Letras de músicas também têm este poder comigo. Tudo que é palavra é assim. Livros, obviamente, mais que filmes, porque exigem mais imaginação e, claro, mais tempo, o que faz a gente ficar ruminando aquilo tudo que está sendo lido e absorvido.

Achei interessante me ver mesquinha assim. Claro que não é tão agradável quanto quando eu leio um livro que me abre a mente para coisas novas, ou quando um outro me aproxima de algo que eu gosto. Ver coisas que a gente acha feio em nós mesmos é um pouco dolorido, frustrante. Mas a melancolia às vezes é boa.

Quer dizer, eu gosto de coisas assim. Acho até que rendo mais quando estou meio triste, melancólica, porque acho que presto mais atenção aos meus pensamentos, dou mais força a eles. Ou talvez pensando assim eu esteja sendo pretensiosa. Talvez o que acontece seja o oposto, e eu dê mais força a outros pensamentos que não os meus, sem me importar muito se isso fere meu ego enorme. Não sei.

Só sei que muitas vezes me encontro ao ficar melancólica, ao ver meus defeitos (ou, pelo menos, aquilo que considero defeito em mim) assim estampados na minha cara. Alguns defeitos que considero até qualidades. Sinto isso ao ler Paixão Pagu, e sinto isso muitas vezes ao ler Fernando Pessoa.

Não sei se minha fraqueza me permite ir além da dor para alcançar o que desejo, sei que não sou nada. Mas também me vejo em mim todos os sonhos do mundo, o desejo de tornar minha vida grande, de toda a humanidade, “ainda que para isso tenha de a perder como minha”.


15 de dezembro
- dia do esperanto
- dia do jardineiro